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Conceitos da Luta – Dillashaw vs Cruz: Aspectos da Luta (parte 1 de 2)

Administrador janeiro 16, 2016 Views 215

De todas as narrativas em torno do confronto iminente entre o campeão peso-galo TJ Dillashaw e o ex-campeão Dominick Cruz, a ideia de um estilo emprestado é a que mais me interessa. Ao longo dos últimos dois meses – ou quase isso – eu tenho ouvido inúmeros fãs de Dominick Cruz afirmar – e Deus sabe onde essas pessoas estavam quando ele ainda detinha o cinturão – que o novo campeão está simplesmente imitando os movimentos que Cruz criou. Se achamos a trocação de Dillashaw revolucionária, eles insistem, é só porque esquecemos a maestria de seu verdadeiro criador.

A verdade é que Dominick Cruz e TJ Dillashaw não são nada parecidos como lutadores. Apesar das origens do footwork idiossincrático de Dillashaw – fãs conhecem bem a história de como ele descobriu por acaso seu estilo peculiar após lhe pedirem para imitar o jeito de lutar de Cruz para a preparação de seu ex-companheiro de equipe Urijah Faber – o atual campeão é um animal totalmente diferente. Alguns dos movimentos podem parecer familiar, mas o propósito não poderia ser mais diferente. Da mesma forma, pode-se acusar Picasso de imitar Michelangelo por usar o mesmo pincel.

Nesta primeira parte do artigo, vamos olhar as diferenças entre esses dois grandes mestres das artes marciais – superficialmente semelhantes mas, ao mesmo tempo, absolutamente únicos no MMA.

OBJETIVOS

Antes de falarmos sobre técnicas, temos que falar sobre objetivos. Digamos que tanto Dillashaw quanto Cruz têm uma variedade finita de metas disponíveis quando a luta começa. Se tivesse que descrever por alto uma luta, essas opções poderiam ser: fechar a distância, criar distância, conectar golpes de forma limpa, evitar ser atingido de forma limpa, aplicar quedas para pontuar.

Agora vamos supor que os nossos dois lutadores devem organizar esses objetivos em ordem de importância, enfatizando certos aspectos do jogo em pé. Dadas exatamente as mesmas opções, suas listas seriam muito diferentes.

A lista de Dominick Cruz poderia seria algo assim:

1. Evitar ser atingido de forma limpa
2. Criar distância
3. Aplicar takedowns
4. Fechar a distância
5. Conectar golpes limpos

Enquanto a de Dillashaw provavelmente seria parecida com isto:

1. Conectar golpes limpos
2. Fechar a distância
3. Evitar ser atingido de forma limpa
4. Criar distância
5. Aplicar takedowns

Posto isso, pode-se ver algumas diferenças significativas entre as abordagens destes dois lutadores. Dillashaw é, obviamente, bastante agressivo. Desde que ele começou a treinar com Duane Ludwig em 2012, Dillashaw conseguiu cinco nocautes em oito lutas. Todos as suas três lutas pelo título terminaram via finalização. O cara claramente gosta de bater nas pessoas, e ele as machuca quando faz isso. O cartel de Cruz conta uma história completamente diferente. Desde sua estréia no WEC em 2008, Cruz teve dez vitórias, com apenas três finalizações – e uma delas foi uma interrupção médica após o adversário de Cruz quebrar a mão.

Alguns poderão argumentar que Dillashaw tem sobre Cruz uma vantagem natural em relação a potência, explicando sua maior taxa de nocautes, mas eu não penso assim. Há algo peculiar no estilo de luta de Cruz que o faz menos propenso a finalizer uma luta do que Dillashaw – e você não tem que acreditar em mim. Vamos voltar no tempo para ver a “discussão técnica” que Cruz teve com Luke Thomas há pouco menos de dois anos atrás. Nas palavras do próprio “Dominador”:

“Uma coisa que eu ouvi mais do que qualquer outra coisa foi ‘bem, você não está nocauteando ninguém, Dominick, porque você não está ajustando seus pés’. Bem, eu também não estou sendo atingido. O objetivo primário de ganhar uma luta é não ser tocado, não ser atingido e bater na outra pessoa. Eu estou batendo nas outras pessoas o dobro do que elas estão me batendo.

Eu posso não ter nocauteado um monte de gente, mas eu estou ganhando as lutas e sem sofrer nenhum dano. Em minha opinião, uma luta é isso… eu sempre estar movimentando meus pés para golpear você e não estar lá no momento que você tenta contra-golpear. Isso tira um pouco da potência. É uma arte e é um trabalho delicado encontrar um meio-termo entre potência, footwork, movimentação e estar completamente fixo.”

Há uma clara divisão entre a mentalidade que produziu essa afirmação e aquela que levou TJ Dillashaw a brutalizar novamente Renan Barão em julho de 2015.

MÉTODOS

Então, como isso é ilustrado em suas lutas reais? Vamos dar dois exemplos; um da vitória de Cruz sobre Urijah Faber em 2011 (há mais de quatro anos, mas há apenas três lutas atrás) e o outro da segunda vitória de Dillashaw sobre Renan Barão. Ambas as lutas foram revanches. Em ambos os casos, o nosso exemplo será tomao a partir do início do segundo round, antes da fadiga dos últimos rounds, mas depois de Dillashaw e Cruz terem tido a chance de sentir seus adversários e decidirem sobre algumas táticas. Em ambas as sequências, os lutadores começam em posições muito semelhantes e atacam em ângulos muito parecidos. Da melhor maneira possível, vamos ver como esses dois lutadores tratam a mesma situação.

Primeiro, TJ Dillashaw.
Dillashaw vs Barão
1- Inclinado para a frente, Dillashaw apresenta sua mão direita.

2- E, em seguida, entra em cena para atirá-la. Barão se desvia do soco…

3- … e Dillashaw rapidamente muda de direção para evadir-se do contra-ataque.

4- Deste novo ângulo, Dillashaw avança com um jab…

5- … e solta um cruzado esquerdo na caneca do Barão.

Agora, Dominick Cruz

Cruz vs Faber

1- Cruz se aproxima de Faber com uma postura ortodoxa.

2- Uma finta rápida com a mão esquerda esconde um ajuste rápido dos pés…

3- … e Cruz mergulha, se desviando da mão direita de Faber, que faz o mesmo…

4- … e (tipo) aplica um chute baixo.

5 – Tendo invertido a sua postura, Cruz sai do raio de ação em um novo ângulo.

Assim como Dillashaw, Cruz ataca com uma postura ortodoxa, e cai numa postura canhota quando defende um contra-ataque. A mudança de postura é acompanhada por uma mudança de ângulo, e Cruz encontra-se diante de Faber, uma fração de segundo antes de Faber poder se ajustar para enfrentá-lo. Em vez de atacar, no entanto, ele recua e se reposiciona.

Não há uma abordagem que funcione para todos os lutadores. Esses exemplos não são destinados a demonstar que um estilo é objectivamente superior ao outro. Se atacasse fora dos ângulos que cria, Cruz seria atingido com muito mais frequência. Sua altura é um ponto fraco. Além disso, ele tem uma tendência a ser pego nos intervalos, quando recua com a cabeça centrada. O que quero dizer é que Dillashaw e Cruz são dois lutadores completamente diferentes, com abordagens totalmente únicas em sua arte.

Volte amanhã para ler a parte dois, na qual vamos dar uma olhada em algumas das formas mais idiossincráticas de combate em jogo nessa disputa e dar uma olhada em dois dos estilos de luta mais exclusivos em todo o MMA.

 

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